O que o comentário de Toronto afirma

Em artigo de 2026, aceito para publicação em 15 de dezembro de 2025, Elia Abi-Jaoude, do Departamento de Psiquiatria do University Health Network, da Universidade de Toronto, examina o uso de cannabis para tiques em adolescentes com síndrome de Tourette. Ele coordena a Provincial Pediatric Tics and Tourette Clinic do Hospital for Sick Children, na mesma cidade, e declara ausência de conflito de interesses e de financiamento específico. Sua conclusão é que investigar a cannabis como opção para tiques nessa faixa etária vale a pena, desde que com um alto grau de cautela.

O texto é um comentário crítico sobre a literatura existente, sem desfechos próprios de eficácia. Quem procura nele uma estimativa de benefício em adolescentes não a encontrará, e essa ausência faz parte do que o autor quer mostrar.

Por que a lacuna pesa nessa faixa etária

A evidência emergente sobre cannabis no manejo de tiques da síndrome de Tourette vem quase exclusivamente de estudos com pacientes adultos. Existem agora dois estudos de viabilidade publicados com adolescentes, e ambos recrutaram participantes com facilidade. O ponto de preocupação do autor é que nenhum deles exigiu, de forma explícita, tentativas prévias com tratamentos padrão baseados em evidências.

Essa combinação pesa por causa dos danos já conhecidos do uso regular de cannabis na adolescência, entre os quais o autor destaca a associação com psicose. Um adolescente que chega à pesquisa sem ter passado pelas opções de primeira linha fica exposto a um risco documentado sem que se saiba se o benefício justificaria a troca. Para o clínico, a pergunta prática que o comentário deixa é a ordem das tentativas terapêuticas, e não apenas a eficácia do canabinoide.

O que o relato de caso com adulto acrescenta e o que não acrescenta

O segundo documento, de 2025, é um relato de caso sobre aptidão para dirigir. O paciente era um homem de 28 anos com síndrome de Tourette e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) comórbido, que usava flores de cannabis medicinal inaladas, prescritas pelo médico assistente, em dose diária que os autores qualificam como extremamente alta. A quantidade de cada uso era definida pelo próprio paciente segundo a necessidade clínica.

Os pesquisadores fizeram avaliações clínicas e testes computadorizados do Vienna Test System em dois dias consecutivos. No primeiro dia, os testes ocorreram antes e depois da inalação; no segundo, o paciente não usou cannabis antes de nenhuma etapa. Pelas diretrizes do Instituto Federal Alemão de Pesquisa em Rodovias, ele foi considerado apto a dirigir em todos os domínios avaliados, em todos os momentos dos dois dias. A concentração sérica de THC variou de 19 ng/ml, no segundo dia sem uso naquele dia, a 364 ng/ml, no primeiro dia após a inalação. Os autores não registraram efeitos adversos clinicamente relevantes.

Os limites desse achado são nítidos. Trata-se de um único paciente adulto, com uma combinação específica de diagnósticos, e nada nele permite extrapolar segurança funcional para adolescentes. Na introdução, os próprios autores citam um ensaio randomizado com 64 pacientes com Tourette, em que 13 semanas de nabiximols não prejudicaram habilidades relevantes para dirigir. Eles também lembram a observação geral de que usuários regulares ficam menos prejudicados do que usuários irregulares. Esse último ponto enfraquece ainda mais qualquer leitura do caso como margem de segurança, pois o paciente descrito já era um usuário habitual.

Segurança e o que as fontes não cobrem

O único dano em adolescentes apontado com nome nas fontes é a associação entre uso regular de cannabis e psicose, citada pelo comentário como motivo para a cautela. O relato de caso, por sua vez, não encontrou efeitos adversos relevantes, mas em um só adulto observado por dois dias.

As duas publicações não descrevem interações medicamentosas, contraindicações formais nem esquemas de uso em adolescentes. Essa omissão não equivale a prova de que não existam, e quem avalia o tema com pacientes jovens não encontra nelas base para um protocolo. Cabe à equipe clínica pesar o risco psiquiátrico conhecido contra um benefício que, nessa faixa etária, ainda não foi medido em ensaio com desfechos de eficácia.

Mesmo no caso adulto, os autores ressaltam que todo condutor que usa cannabis medicinal tem a obrigação de verificar a própria aptidão antes de dirigir um veículo.