Um alvo molecular em tecido de rato

O canabidiol é descrito com frequência em oposição ao THC, outro canabinoide da mesma planta cujo perfil psicotomimético é tratado em literatura à parte, e a pergunta clínica que resta para o CBD é se ele tem algum papel no tratamento de sintomas psicóticos. A resposta exige separar duas camadas de evidência que a divulgação costuma fundir: a hipótese sobre o mecanismo e os resultados em pacientes.

Seeman (2016) é um estudo pré-clínico in vitro, realizado em tecido estriatal de ratos, em cinco experimentos independentes. O CBD apresentou Ki de 11 nM nos receptores de dopamina D2 em estado de alta afinidade (D2High) e de 2.800 nM no estado de baixa afinidade (D2Low), uma diferença de seletividade de cerca de duzentas e cinquenta vezes. O autor interpreta o padrão como agonismo parcial em D2High, e o título do trabalho associa essa hipótese a uma dose clínica antipsicótica.

Essa associação é uma previsão do modelo, não um resultado em humanos. Ligação a um receptor em homogenato de tecido animal não estabelece o mecanismo pelo qual o CBD age em pacientes, e não permite extrair posologia para a prática clínica.

O que os ensaios clínicos descrevem

A revisão de O’Sullivan e colaboradores (2023) trata do CBD purificado, não de extratos quaisquer, e esse recorte importa para quem prescreve ou dispensa. Sua seção sobre condições psiquiátricas descreve ensaios clínicos em psicose, entre eles um com 88 participantes acompanhados por seis semanas e outro com 42 participantes que incluiu um comparador ativo. Resultados de neuroimagem citados nessa literatura descrevem alterações em exames e não equivalem a remissão clínica, de modo que não devem ser lidos como desfecho de eficácia.

O ensaio de maior porte é o de McGuire e colaboradores, publicado online em 15 de dezembro de 2017 no American Journal of Psychiatry (edição de março de 2018). Trata-se de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e exploratório, com 43 participantes no grupo CBD e 45 no grupo placebo, todos mantidos no antipsicótico que já utilizavam, durante seis semanas. O CBD entrou, portanto, como terapia adjuvante, e o desenho não testa a substituição do antipsicótico por canabidiol.

Magnitude do efeito

Na subescala positiva da PANSS, a diferença entre os tratamentos foi de -1,4 ponto, a favor do CBD, com intervalo de confiança de 95% de -2,5 a -0,2. O intervalo exclui o zero, mas seu limite superior permanece próximo dele. A magnitude de 1,4 ponto deve ser distinguida da significância estatística: o resultado do ensaio não é uma taxa de remissão nem uma demonstração de equivalência a outro antipsicótico.

Nos desfechos de cognição (BACS) e de funcionamento global (GAF), as diferenças entre os grupos não alcançaram significância estatística, porque os intervalos de confiança incluem o zero. Entre esses três desfechos, o resultado favorável estatisticamente significativo foi o da subescala positiva da PANSS; o ensaio também descreve melhora na avaliação clínica CGI-I, que não deve ser confundida com benefício cognitivo ou funcional demonstrado.

Os eventos adversos tiveram taxas semelhantes entre os dois grupos. Essa semelhança, observada em 88 pessoas por seis semanas, não comprova segurança universal nem segurança em uso prolongado. O resumo do ensaio consultado não informa contagens de abandono ou a distribuição dos eventos específicos; esses dados não devem ser preenchidos por estimativa.

Limites de generalização

O alvo molecular e a eficácia clínica são questões separadas. O resultado de McGuire não sustenta que a ação em receptores D2 explique a diferença observada na PANSS, e Seeman (2016) não demonstra que o efeito clínico dependa desse mecanismo. Khalsa e colaboradores (2022), na revisão Cannabinoids as Medicinals, situam o CBD dentro da classe mais ampla de canabinoides medicinais, mas os dados do ensaio de McGuire valem para CBD purificado, em adultos com esquizofrenia já em uso de antipsicótico, e não se transferem automaticamente a extratos que contenham THC nem a outras populações. O acompanhamento de seis semanas desse ensaio não permite determinar se a diferença entre tratamentos se mantém ao longo de meses.