A revisão de formulações não é um ensaio em osteoartrite

Bruni et al. (2018), publicada na revista Molecules, é uma revisão sobre sistemas de administração de canabinoides para dor e inflamação, e não um estudo de eficácia em osteoartrite. Os autores partem da baixa biodisponibilidade oral dos canabinoides para discutir alternativas como a via transdérmica, a intranasal e a transmucosa, além de sistemas de liberação nanoestruturados, e afirmam que o desenvolvimento desses produtos exige ensaios clínicos bem controlados para estabelecer eficácia, faixas de dose e segurança. Para o clínico, o texto funciona como mapa de formulações: explica por que existem apresentações tópicas e orais distintas, mas não informa qual delas alivia a dor articular. Essa pergunta só se responde com os ensaios abaixo, cada um com via, articulação e desfecho próprios.

Via tópica: o desenho de Heineman et al.

Heineman et al. (2022), publicado no Journal of Hand Surgery, conduziu um ensaio randomizado, duplo-cego e cruzado de fase II com 18 participantes que tinham artrite basal do polegar. Cada participante recebeu CBD tópico e o veículo sem canabidiol em períodos curtos, separados por uma pausa de lavagem. As medidas foram a escala visual analógica de dor, o questionário DASH, que avalia incapacidade do membro superior, e a avaliação numérica única SANE.

Este texto descreve apenas o desenho e as escalas, porque o resumo disponível não traz magnitude de efeito nem intervalo de confiança que sustentem uma conclusão clínica. Uma amostra de 18 pessoas, observada por períodos curtos numa única articulação da mão, caracteriza um ensaio exploratório. O desenho deste estudo não permite extrapolar resultados ao joelho ou a outras formulações.

Via oral: dois ensaios controlados por placebo

Vela et al. (publicado online em 2021, volume de 2022 da revista Pain) comparou CBD oral com placebo durante 12 semanas, como terapia adicional em pacientes com dor de intensidade moderada apesar do tratamento em curso. A população era mista, com osteoartrite de mãos e artrite psoriásica. Foram randomizados 136 pacientes, dos quais 129 entraram na análise primária. A diferença entre os grupos na intensidade de dor, medida de 0 a 100 mm, foi de 0,23 mm (IC95% -9,41 a 9,90; P=0,96), e os autores não encontraram efeito analgésico clínica ou estatisticamente significativo em relação ao placebo. Como a coorte reúne duas doenças, o resultado não pode ser atribuído a um subgrupo puro de osteoartrite.

Pramhas et al. (2023), publicado na The Lancet Regional Health - Europe, testou CBD oral adicionado ao paracetamol mantido em osteoartrite crônica e dolorosa de joelho, ao longo de oito semanas. Foram randomizados 86 participantes e 58 concluíram o estudo, de modo que a análise por intenção de tratar e a população de completadores correspondem a números diferentes. Cada braço teve 43 randomizados; um participante de cada grupo retirou o consentimento antes da intervenção, e 42 por grupo receberam o tratamento. As descontinuações totais foram 16 com CBD e 12 com placebo (P=0,48), incluindo 13 e 6 por eventos adversos, respectivamente (P=0,12). Nenhuma dessas diferenças foi estatisticamente significativa. O desfecho primário foi a variação na subescala de dor do WOMAC: a redução média foi de 2,5 no grupo CBD e de 2,4 no grupo placebo (P=0,80). Os autores concluíram que o CBD não teve efeito analgésico adicional em relação ao placebo somado ao paracetamol e que seus resultados não sustentam o uso do canabidiol como suplemento analgésico na osteoartrite de joelho.

Como ler um resultado nulo

Nenhum dos dois ensaios orais demonstrou diferença em dor, e a ausência de diferença significativa não equivale à equivalência entre tratamentos. O que os dados permitem afirmar é mais estreito: nessas amostras, com esses desfechos e por esses prazos, o CBD oral não superou o placebo. Os resultados também não se estendem ao produto tópico, que foi avaliado em outra articulação, com outro desenho e sem dados de magnitude acessíveis aqui.

A comparação entre as vias, portanto, não autoriza dizer que uma funciona e a outra não. Há um estudo tópico pequeno, descrito apenas pelo desenho, e dois estudos orais controlados cujos desfechos primários não diferiram do placebo, um em população mista de mãos e outro em joelho.

Segurança junto ao desfecho

O ensaio de Pramhas et al. registrou 135 eventos adversos no grupo CBD e 105 no grupo placebo, o que corresponde a 56% e 44% do total de eventos, e não à proporção de participantes afetados. Já a elevação de aminotransferases hepáticas e de gama-glutamiltransferase acima do valor basal foi contada por participante: ocorreu em 15 participantes do grupo CBD e em 5 do grupo placebo (P=0,02). É essa contagem por pessoa, e não o total de eventos, que permite estimar quantos pacientes apresentaram a alteração laboratorial.

O estudo excluiu gestantes, lactantes e pessoas com função renal ou hepática comprometida. Isso limita a aplicabilidade dos resultados a esses grupos; não estabelece, por si só, contraindicações clínicas gerais. Os autores recomendam monitoramento dos parâmetros hepáticos ao iniciar terapia com CBD.

Para interações, a bula norte-americana de Epidiolex, solução oral de canabidiol indicada para epilepsias específicas, informa aumento da exposição ao metabólito ativo do clobazam, com maior risco de efeitos adversos, incluindo sedação, e maior frequência de elevações de enzimas hepáticas com valproato. Essa fonte fundamenta a avaliação das medicações concomitantes; não quantifica esses riscos para a formulação usada no ensaio de osteoartrite nem para produtos tópicos.