Como interpretar os dados de dose na epilepsia
Dados de dose por peso ajudam a interpretar o uso adjuvante do canabidiol na epilepsia, mas as publicações analisadas não estabelecem um esquema pediátrico universal. A coorte retrospectiva coreana de 2026 descreve o que aconteceu com 29 pacientes em um conjunto de hospitais, e a revisão sistemática de 2019 mapeia doses em populações heterogêneas e conclui que faltam estudos de busca de dose. Manter essas duas camadas separadas impede que uma média descritiva seja lida como alvo terapêutico.
A coorte coreana de epilepsia refratária
Shim e colaboradores (2026) avaliaram retrospectivamente, em hospitais da Korea University entre abril de 2019 e maio de 2024, 29 pacientes com epilepsia de início pediátrico, refratária após pelo menos três anticonvulsivantes adequados por ao menos 12 meses. A Tabela 1 informa idade de 3,4 a 21,8 anos no início do canabidiol, portanto a amostra incluiu adultos jovens. O canabidiol oral foi usado como terapia adjuvante, em uma formulação específica, e os pacientes recebiam mediana de cinco medicamentos antecrise, entre eles ácido valproico (93,1%) e clobazam (82,8%).
A dose mediana de manutenção foi de 14,2 mg/kg/dia, com amplitude de 7,8 a 21,7 mg/kg/dia. O tempo até a manutenção teve mediana de 1,2 mês e variou de 0,7 a 26 meses, segundo os autores conforme resposta clínica e tolerabilidade. Esses valores descrevem o que ocorreu nesses 29 pacientes, com essa formulação e nesse contexto hospitalar. Não constituem protocolo, faixa recomendada nem dose ideal, e a amplitude observada registra variação individual, não um intervalo de segurança.
No resumo, a retenção no tratamento ficou acima de 86% aos 12 e aos 24 meses, 79,3% atingiram redução de pelo menos 50% na frequência de crises aos 12 meses, e 34,5% tiveram redução de pelo menos 75% sem crises motoras generalizadas. Os métodos, porém, definem essas categorias como reduções superiores a 50% e a 75%, sem esclarecer a diferença nos limites exatos. Essa divergência exige cautela ao comparar os resultados com outras coortes. O estudo é retrospectivo, sem grupo controle, com frequência de crises baseada em relato de cuidadores, e não permite inferência causal.
A revisão sistemática de 2019
Millar e colaboradores (2019) recuperaram 1.038 artigos, com busca até 8 de agosto de 2018, e incluíram 35 estudos em 13 contextos médicos. Nos 23 estudos que relataram melhora significativa do desfecho primário, as doses variaram de menos de 1 a 50 mg/kg/dia. A epilepsia foi a condição mais estudada: os 11 estudos da área relataram efeito sobre frequência ou gravidade das crises, com média de 15 mg/kg/dia nos quatro ensaios randomizados (n = 531), de 42 mg/kg/dia nos três ensaios abertos prospectivos (n = 203) e de 21 mg/kg/dia em séries e relato de caso (n = 16).
Essas médias vêm de desenhos, populações e preparações diferentes. A distância entre 15 e 42 mg/kg/dia não autoriza concluir que doses maiores funcionam melhor, e nenhuma delas é referência para um paciente ou produto específico. Nenhuma publicação incluída informou concentrações plasmáticas, e os autores apontam a necessidade de estudos de busca de dose, de estudos farmacocinéticos e de ensaios de fase III para definir concentrações eficazes por contexto clínico.
Segurança e interações
Na coorte de Shim e colaboradores, eventos adversos ocorreram em 37,9% dos 29 pacientes, sendo a sonolência o mais frequente (n = 6, 20,7%). Letargia apareceu em 2 pacientes (6,9%), e ataxia, fraqueza em perna, elevação de enzimas hepáticas e elevação de amônia em 1 paciente cada (3,4%). Outros eventos emergentes do tratamento levaram à suspensão do canabidiol em 3 pacientes (10,3%). Em 4 pacientes foi reduzida a dose de ácido valproico, por sonolência (2), elevação de enzimas hepáticas (1) e hiperamonemia (1). Como quase todos usavam valproato e a maioria usava clobazam, o estudo não separa o efeito do canabidiol do efeito da combinação.
A bula da FDA de uma solução oral de canabidiol aprovada nos Estados Unidos, revisada em junho de 2025, registra que o produto pode causar elevação de transaminases e que o uso concomitante de valproato e de doses mais altas aumenta esse risco. O uso de clobazam também aumentou a incidência de elevações, em menor grau que o valproato. O documento recomenda dosar ALT, AST e bilirrubina total antes de iniciar o tratamento e lista como contraindicação a hipersensibilidade ao canabidiol ou a qualquer componente dessa solução oral. É referência de segurança para um produto e um mercado específicos, não instrução regulatória ou posológica para o Brasil, e não deve ser lida como evidência de eficácia.
Como o peso entrou na comparação
Na revisão de Millar e colaboradores, os valores por quilograma nem sempre vieram de pesagem individual informada pelos estudos. Em 24 estudos, a dose não estava disponível em mg/kg; para as conversões em adultos, foi usado um peso médio de 62 kg. Em um relato pediátrico, os autores usaram 40 kg para a conversão. Essa padronização permitiu comparar publicações, mas não demonstra que cada participante recebeu a dose calculada com seu próprio peso. É uma limitação metodológica específica ao interpretar as médias da revisão, distinta de uma investigação prospectiva de titulação pediátrica.